Em teoria, parece bom. A maioria dos países desenvolvidos faz isso, inclusive... Tanto os com tradição extremamente liberal como os EUA, como os de tradição de bem-estar social como os países nórdicos, só que, no caso dos países nórdicos, os sindicatos são muito mais fortes e presentes nessas negociações — estão entre os países mais sindicalizados do mundo inteiro.
Porém, o Brasil apresenta suas próprias idiossincrasias, e a relação entre empregador e empregado não costuma ser tão simétrica...
Falo da minha área, que é engenharia e tecnologia da informação. Eu tenho uma série de colegas de profissão que não trabalham mais como subordinados em CLT... Vários deles são prestadores de serviço, principalmente PJ e MEI, com escala de trabalho muito mais flexível e recebendo muito mais p/ hora do que ganhariam como funcionários fixos. Ou então são co-empreendedores, onde abrem suas empresas de consultoria e/ou prestação de serviços e inevitavelmente se tornam empregadores, mas é uma minoria da minoria dentro do meio. Só que é muito mais comum entre pessoas que já têm alguns bons anos, ou até boas décadas de carreira... Que possuem estabilidade, planejamento e rede de contatos para transicionar de regime trabalhista. Muita das vezes é uma meta dentro da área.
Quem é recém-formado e/ou não possui capital familiar geralmente precisa sujeitar-se a situações mais insalubres... As empresas contratam engenheiros para exercer funções de engenheiro e assumirem responsabilidades de engenheiro, muitas das vezes exigindo registro no CREA, mas sem estarem contratados como engenheiros. A profissão de engenheiro apresenta piso salarial, e as empresas contratam engenheiros como supervisores, analistas e até estagiários para pagar um salário abaixo do piso. E a profissão de engenheiro já está tão precarizada que as pessoas aceitam qualquer coisa porque não existem outras oportunidades... Se você não quer o trabalho, há alguém mais desesperado que queira. As empresas costumam ter um ou dois engenheiros verdadeiramente contratados como engenheiros para assinar projetos, e geralmente são os filhos do dono da empresa ou algo assim que estão lá obviamente pelo networking, e muito provavelmente não precisaram de processo seletivo para estar ali, o que desfaz qualquer discurso sobre meritocracia.
Isso com engenharia... Imagine então profissões menos amparadas como as pessoas que trabalham no comércio e/ou varejo, que são justamente as que trabalham 6x1.
A realidade é mais complexa.