O mundo está tão bizarro que uma universidade do Texas mandou censurar passagens de O Banquete e A República, ambos de Platão, da ementa do curso de filosofia (!!!) por promover ideologia de gênero. Uma obra de 2,4 mil anos atrás... Que já abordava temas como sexualidade, gênero, androginia, e entre outras coisas.
Guerras culturais sempre começam com alvos específicos para combater “a ideologia”, “a doutrinação”, “o ativismo”, e etc... Mas oras, quando você constrói termos elásticos para inimigos amorfos com o intuito de rotular qualquer coisa desconfortável (“marxismo cultural”, “cultura ‘woke’”, “ideologia de gênero”, etc) era óbvio que não pararia nos “excessos modernos” e iria agir de maneira retroativa. Era nítido e cristalino.
Igual aquela moça que falou que mulheres que têm aborto espontâneo foi porque os filhos foram devorados por demônios. E as pessoas se chocaram com o absurdo. Uai... Quando você transforma aborto, mesmo o aborto clínico e voluntário, em símbolo de pecado absoluto, mal espiritual e guerra moral contra Deus, era óbvio que as pessoas empurrariam essa lógica para extremos! Se gravidez é vista como “bênção garantida por Deus”, se perda gestacional é cercada de culpa moral, se o corpo feminino é espiritualmente policiado, e demônios são utilizados como explicação cotidiana para tudo... Eu pensei que fosse óbvio que eventualmente alguém iria concluir que aborto espontâneo (aquele que ocorre involuntariamente, quando o corpo da mulher rejeita o bebê) também possui causa espiritual, punitiva e/ou demoníaca.