Em termos de perversidade, o pior vilão é o que faz o mal deliberadamente com intenções claras de prejudicar o próximo e plenamente consciente das reações de seus atos. São pessoas que sabem instrumentalizar o mal a seu favor.
Porém, em termos proporcionais, a maioria das pessoas não é exatamente um vilão caricato... Por mais que, sim, existam muitas pessoas que pratiquem o mal com intenções deliberadas.
Boa parte das pessoas, quiçá a maioria, pratica o mal acreditando que está fazendo a coisa certa. É o que Hannah Arendt chama de banalidade do mal... Quando nós deixamos de refletir criticamente sobre nossos atos e passamos a normalizar o mal como parte da rotina, conformismo e/ou obediência. Muitas vezes, esse mal manifesta-se a partir de reprodução de violência simbólica, que é um conceito de Pierre Bourdieu... Passamos a naturalizar certas práticas e reproduzimos violência sem necessariamente termos intenção, ou sequer percebermos porque, de novo, atribuímos tais práticas à uma ordem natural.
Bourdieu nos explica como as pessoas passam a enxergar determinadas relações de poder como naturais; e Arendt nos explica como, uma vez naturalizadas, podem ser reproduzidas por pessoas comuns sem reflexão crítica.
Um exemplo claro de vilão que se encaixa nessa descrição é Claude Frollo de O Corcunda de Notre-Dame (1831) de Victor-Marie Hugo. O vilão da adaptação da Disney de 1997 captura a essência dele... Frollo é um vilão que, na verdade, acredita ser o herói. O que ele faz, ele faz para proteger os valores morais cristãos, os bons costumes e a boa reputação das pessoas de bem, sem que ele mesmo perceba que, nesse processo, ele está sendo violento.