Considero o tema de segurança pública muito relevante no Brasil, porque os índices são de fato preocupantes, mas detesto o sensacionalismo que fazem em cima disso...
No caso, se tornou arma política. Todo mundo acusa todo mundo de fazer parte do PCC, CV ou de qualquer facção: “Fulano é do PCC”; “Beltrano é do CV”; “Partido X trabalha para a facção Y”... Aí parece que tá todo mundo envolvido, mas ao mesmo tempo ninguém é preso e ninguém prova nada. Há indivíduos específicos que acabam sendo investigados e presos por vínculos ao crime organizado, mas a maioria fica nesse campo nebuloso de que acusa-se demais e prova-se de menos.
Existem estudiosos que são especialistas em segurança pública, e eles pesquisam e publicam artigos sobre o assunto... Um dos principais aqui no Brasil é Gabriel Feltran, que inclusive é professor de Ciências Sociais da UFScar e possui livros publicados sobre o assunto como Irmãos: Uma história do PCC (2018).
Organizações criminosas como PCC e CV, que são as duas maiores nacionalmente, além de outras regionais, de fato possuem controle territorial em favelas, comunidades e presídios. Isso de fato não é sensacionalismo... Essas facções controlam acesso, impõem as próprias leis, possuem seus próprios tribunais, e até cobram impostos e “investem” em cultura — são verdadeiros Estados paralelos. E, sim, elas estão penetrando na política institucional... Eles estão financiando campanhas de candidatos a cargos públicos, capturam contratos públicos, e existem casos confirmados de cooptação e infiltração em polícias, advocacia e, em alguns casos, no Judiciário e Ministério Público locais.
Só que existe um porém nisso tudo... Para essas facções, o interesse é muito maior dentro da política municipal do que no Congresso Nacional ou na Presidência da República. Para um chefe de facção, é muito mais vantajoso você ter sob controle um vereador, que possui influência real sobre contratos de transporte e zoneamento, do que um deputado federal isolado.
A esmagadora maioria dos especialistas em segurança pública daqui do Brasil vão rejeitar a tese de narcoestado porque o controle político do crime organizado, pelo menos por enquanto, ainda é localizado em áreas específicas. E porque o Estado brasileiro continua funcional em áreas como Forças Armadas e o Judiciário nacional, apesar de poroso e desigual... De maneira que o problema maior é justamente a inoperância do Estado nessas áreas do que o fato do Estado ter sido capturado pelo crime. Existe uma diferença.
O problema é que esse debate mexe demais com as emoções das pessoas — o que eu verdadeiramente entendo — e alguns se aproveitam para tornar arma eleitoral, aí qualquer um pode falar que Ciclano é envolvido com o PCC e reduz o problema do próprio lado, aí acaba que o pessoal fica personificando o problema ao invés de identificar vulnerabilidades institucionais que permitem que o crime organizado penetre a esfera pública.