Vou citar aqui a proposta do candidato Romeu Zema (NOVO), especialmente na entrevista ao g1/GloboNews com Andréia Sadi e Natuza Nery na quinta-feira (06/08). Vou pegar o recorte entre 1:17:08 e 1:27:55, que é quando começam a falar a respeito de segurança pública...
https://www.youtube.com/live/dVvy9Bm905g?is=Kk_PAFSsLbKGLhF0
Sadi começa perguntando à Zema a respeito do método de Nayib Bukele em El Salvador... Que dispensa comentários porque você já conhece e já falou que aprova várias e várias vezes aqui. Mas, para quem não está familiarizado, é considerado um dos casos mais bem-sucedidos de combate ao crime organizado do mundo inteiro, dado ao fato de que El Salvador saiu de um dos países mais perigosos do mundo para um dos mais seguros.

Acontece que Zema também é apoiador do método Bukele e esteve em El Salvador em maio de 2025. Então, Sadi pergunta... Como Zema pretende implementar a “fórmula Bukele” no Brasil sendo que a maioria das coisas que Bukele aplicou em El Salvador, quando trazidas para o Brasil, são inconstitucionais. Até mesmo para aprovar um estado de exceção é necessário que o Congresso Nacional esteja de acordo.
Zema responde que acha mais inconstitucional ainda que PCC e CV controlem territórios. Em linguística, aplica-se um conceito chamado máximas conversacionais de Paul Grice, depois você pesquisa quis são e o que são, porque elas são essenciais para uma boa conversa... Mas a resposta de Zema viola duas: a Máxima de Relação, que diz que você deve permanecer relevante ao tópico; e a Máxima de Quantidade, que diz que você deve responder o necessário, nem mais e nem menos. Sadi não perguntou o que ele pensa sobre as facções criminosas.
Em seguida, Sadi começa uma rodada de perguntas de “sim” ou “não” que Zema deve responder... Começa a enumerar a respeito de: 1) prisões sem mandato; 2) redução drástica de habeas corpus; 3) dificuldade de acesso a advogados; 4) julgamento coletivo de centenas de réus; e 5) prisões com base em denúncia, perfil territorial e/ou tatuagem.
Se você acha o ápice da ditadura ter o Discord removido do ar, os itens enumerados por Sadi são comuns em ditaduras e estados de exceção onde os direitos civis são suspensos. Mas o que interessa são as respostas de Zema...
Em todas, sem exceção, Zema responde com “não” e “de jeito nenhum”. E é quando Sadi pergunta novamente o que é que exatamente Zema pretende trazer da “fórmula Bukele” para o Brasil, já que todas essas medidas foram adotadas em El Salvador para combater o crime organizado. Então, Zema responde... Ele discorda mais ainda que PCC e CV controlem territórios. Lembra das máximas conversacionais? Aqui, ele desrespeita só duas, potencialmente três: a Máxima de Quantidade; a Máxima de Relação; e também a Máxima de Maneira, que é dar respostas opacas e ambíguas. A rodada de “sim” ou “não” respeita as quatro máximas, mas quando Sadi força uma resposta mais específica, Zema evade e foge do assunto.
Depois elas ainda perguntam sobre como que é que ele pretende combater o crime organizado e, se você analisar o mesmo recorte da entrevista que eu, talvez perceba (ou não) que as respostas continuam a desrespeitar as máximas... Por exemplo, quando Zema responde que vai recuperar os territórios controlados pelas facções. Recuperar territórios é objetivo, Sadi e Nery perguntam os meios, e Zema evade. Ninguém concorda que o crime controle territórios, todo mundo quer recuperar essas áreas... Os candidatos discordam nos métodos.
Considerações que eu tiro e que você pode concordar ou discordar comigo...
A esquerda falha e falha muito com a pauta de segurança pública quando relativiza o crime e a responsabilidade individual dos criminosos, apesar de concordar com fatores estruturais que contribuem para a proliferação do crime. Porém, o que a direita e a extrema-direita fazem é pegar essa deficiência e se apropriar em capital político... Daí reduzem um problema complexo que envolve investigação, inteligência, policiamento, sistema prisional, cooperação federativa, defesa nacional, medidas de prevenção, e etc, numa narrativa moral de “Estado versus bandidos”.
O bandido é transformado num personagem político que serve de contraponto ao “cidadão de bem” (que é outro personagem) e cria-se uma dicotomia de qual lado você está... E isso é eficaz para inflamar emocionalmente eleitores cansados de violência. Bukele se transforma numa vitrine e exemplo visual prático de que é possível, mas omitem os métodos... E a segurança vira um atalho para transformar em performance de autoridade, mas não necessariamente uma política pública suficientemente trabalhada. Além de pressionar os opositores, já que o governo atual deixou a segurança chegar no atual nível de calamidade e hoje em dia parece que todo mundo tá envolvido com o PCC.
Mas basta uma pequena pressão como a que aconteceu com Zema no GloboNews que revela como a pauta é oca...
A instrumentalização da segurança pública ocorre quando o medo real da violência é convertido em uma demonstração política de autoridade, na qual o candidato precisa parecer “duro contra o crime” mais do que precisa explicar, com precisão, quais políticas produzirão o resultado prometido.