É engraçado...
Minha mãe se identifica enquanto cristã, de direita, conservadora e antipetista, como é comum em Santa Catarina. Porém, ela não chega a ser antifeminista... E ela é uma mulher que inseriu-se no mercado de trabalho muito precocemente, e assim como a maior parte das famílias do Brasil atualmente, ela era e até hoje é a chefe de casa — eu não moro mais com ela, mas ela ainda controla as finanças da casa, tanto o salário dela quanto do meu pai, ambos aposentados e meu pai está com quadro de demência. Inclusive, ela diz que a nossa família é disfuncional em certa medida por não respeitar os papéis tradicionais de gênero, o que eu particularmente discordo.
Então, assim...
Ela rejeita o rótulo de feminista, mas, se você conversar com ela, ela não discorda de boa parte das pautas feministas... Principalmente em relação ao trabalho, como desigualdade salarial, a maneira com que as mulheres estão mais expostas a assédio moral e sexual no ambiente de trabalho, dupla jornada — principalmente em relação a invisibilidade do trabalho de cuidadora do lar — e ela também concorda que há machismo na reprodução de estereótipos como, por exemplo, a de que mulher é histérica e/ou quando tentam invalidar o que a mulher está dizendo atribuindo uma reação a uma suposta condição hormonal (quando perguntam “você está de TPM?”). Ela pode não ser a favor de mulheres trans ou aborto, mas não rejeita tudo nem de longe.
É contraditório, mas as experiências femininas dela acabam não permitindo que ela discorde de algumas pautas do feminismo, ainda que seja inconscientemente.