
Durante meses, uma professora de Ciências da rede pública registrou os constrangimentos que sofreu em sala. Anotou "piadas" de duplo sentido, julgamentos e a.gr3ssõ3s verbais, sempre com o nome do estudante, a turma e a data.
Ela não avisou aos alunos. Esperou o plantão pedagógico. Ao encontrar a mãe de um aluno de 11 anos, perguntou serenamente: "Antes de falar sobre seu filho, posso contar uma piada?"
Com a autorização da mãe, perguntou: "Você prefere café na cafeteira ou no cuador, porque no c* a dor é mais forte?" Constrangida, a mãe reagiu: "Que brincadeira deselegante é essa?"
A professora respondeu: "Foi isso que ouvi do seu filho durante a aula do dia 08/07 às 8h13min. Se foi constrangedor escutar essa piada diante de mim e dele, imagine como foi para mim ouvi-la diante de mais 30 alunos."
A mãe perguntou ao filho se ele realmente havia dito aquilo.
O menino confirmou e abaixou a cabeça. Ela pediu desculpas à professora e afirmou que conversaria com ele em casa. A professora fez devolutivas semelhantes aos familiares de outros estudantes dos sextos e sétimos anos. A atitude encontra fundamento em princípios pedagógicos como responsabilização, reflexão sobre as consequências e participação da família no processo educativo. Ao reproduzir a fala em um ambiente reservado, a professora permitiu que o estudante percebesse o efeito concreto de suas palavras. Em vez de apenas dizer que a conduta era inadequada, ela possibilitou que o aluno e sua responsável compreendessem por que era inadequada.
O caderninho também impediu que as agressões fossem tratadas como exagero, ou "brincadeira de criança". Professor nenhum deve ser obrigado a naturalizar ofensas para continuar ensinando.
E você? Teria o autocontrole necessário para anotar cada constrangimento, continuar dando aula e esperar o momento certo para devolvê-lo à família?
O nome da professora foi preservado. Por ser contratada, ela teme represálias profissionais e novos constrangimentos nas redes sociais.