Diferente da Gália, que foi conquistada quase inteiramente por um único homem (Júlio César), a conquista da Península Ibérica pela República Romana foi um processo brutal que durou quase 200 anos.
Como a região era gigantesca e dividida em duas províncias originais a partir de 197 a.C. — a Hispânia Citerior (o leste e o nordeste) e a Hispânia Ulterior (o sul e o oeste) —, a expansão e a pacificação antes de César ficaram marcadas pelas ações de três generais e governadores de destaque:
1. Cipião Africano (O pioneiro que expulsou Cartago)
Embora as províncias ainda não tivessem sido formalmente criadas, o homem que efetivamente conquistou os primeiros e mais importantes territórios dessas duas regiões foi Publio Cornélio Cipião Africano.
O feito: Entre 210 a.C. e 206 a.C. (durante a Segunda Guerra Púnica), ele tomou a principal base cartaginesa na península (Carthago Nova) e esmagou os exércitos rivais na Batalha de Ilipa. Ele expulsou definitivamente os cartagineses e colocou todo o litoral leste (futura Citerior) e o vale do rio Guadalquivir no sul (futura Ulterior) sob as rédeas de Roma.
2. Catão, o Velho (O pacificador implacável das duas províncias)
Logo após a criação oficial das províncias da Hispânia Citerior e Ulterior, os povos nativos iniciaram uma grande revolta geral que quase expulsou os romanos. O Senado enviou então o cônsul Marco Pórcio Catão (conhecido como Catão, o Velho) em 195 a.C.
O feito: Catão assumiu o comando na Hispânia Citerior e, com uma violência militar implacável, sufocou as rebeliões dos povos ibéricos ao longo do rio Ebro. Em seguida, marchou em direção ao sul para ajudar a estabilizar a Hispânia Ulterior, desarmando as tribos locais e forçando a demolição de suas muralhas defensivas. Ele consolidou o domínio romano inicial de forma duríssima.
3. Cipião Emiliano (O homem que quebrou a resistência celtibérica)
Mesmo com o controle das costas, o interior da península resistiu ferozmente por décadas (nas chamadas Guerras Celtibéricas e Lusitanas). O general que finalmente garantiu a expansão definitiva para o coração da Hispânia Citerior foi Cipião Emiliano (neto adotivo do Africano).
O feito: Em 133 a.C., ele liderou o cerco e a destruição completa de Numância, a fortaleza que simbolizava a resistência dos povos celtas no centro-norte da península. Com a queda de Numância, o coração da Hispânia Citerior foi completamente subjugado.
O papel de Júlio César: Quando César foi enviado para a Hispânia Ulterior como governador (propraetor) em 61 a.C. (pouco antes de formar o Primeiro Triunvirato), ele realizou campanhas contra as tribos que ainda resistiam na região da atual Galiza e de Portugal. No entanto, o mapa e as fronteiras das províncias Citerior e Ulterior já haviam sido amplamente expandidos e desenhados por esses generais que o antecederam. A anexação total e definitiva do extremo norte da península só seria finalizada décadas depois pelo imperador César Augusto.