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O naturalismo afirma que todas as coisas, incluindo a mente humana, são produtos da evolução e que têm a sobrevivência como seu objetivo, não a formação de crenças verdadeiras. Por esse motivo, ele levanta dúvidas sobre a confiabilidade das nossas crenças e mina, até mesmo, a base da empreitada científica.

Isso acontece porque, na perspectiva naturalista, as características que persistem nas populações são aquelas que conferem vantagens de sobrevivência e reprodução. A seleção natural favorece traços que favorecem a sobrevivência, não a formação de faculdades cognitivas confiáveis.

A evolução favorece a formação de crenças que sejam adaptativas para a sobrevivência, independentemente de serem verdadeiras. Por exemplo, ter crenças que levam a evitar ameaças iminentes pode ser vantajoso, mesmo que essas crenças sejam falsas. Portanto, se aceitarmos que a evolução visa a sobrevivência, e não a verdade, isso levanta a questão de se podemos confiar nas nossas crenças sobre qualquer assunto, como representações verdadeiras da realidade.

Se o naturalismo e a evolução são verdadeiros, é muito improvável que nossas faculdades cognitivas sejam confiáveis. Portanto, o indivíduo deve abrir mão de um dos dois (o naturalismo ou a evolução).

Na cosmovisão teísta, por outro lado, fomos criados por um Deus que queria que fôssemos capazes de conhecer a ele e à sua criação. Portanto, podemos confiar que ele nos dotou de faculdades cognitivas confiáveis. É o naturalismo que entra em forte conflito com a ciência, não o teísmo. Filósofos como Alvin Plantinga já apontaram isso. Até mesmo pensadores não cristãos já constaram isso. Veja os meus comentários.
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Nietzsche escreveu o seguinte:

"É injusto para com Descartes considerar frivolo o seu apelo à credibilidade de Deus. Com efeito, somente supondo um Deus moralmente semelhante a nós que a "verdade" e a busca da verdade podem ter algum significado e alguma perspectiva de éxito. Deixando-se de lado esse Deus, torna-se possivel pergun- tar se o engano não é uma das condições da vida."

O filósofo Thomas Nagel, que, aliás, não vê o teísmo com bons olhos, disse: "Se crêssemos que nossa capacidade de formar teorias objetivas [crenças verdadeiras, ex.] fosse produto da seleção natural, teríamos motivos para encarar seus resultados com extremo ceticismo". Segundo Barry Stroud (outro filósofo que tampouco é amigo do teismo), "há [no naturalismo] um absurdo constrangedor que se revela assim que o naturalista reflete e reconhece que acredita em sua teoria naturalista sobre o mundo. [...] Quero dizer que ele não pode afirmá-la e, com coerência, considerá-la verdadeira"

Patricia Churchland, eminente filósofa naturalista, declarou em um trecho merecidamente famoso:

"Em essência, o sistema nervoso permite que o organismo obtenha sucesso em quatro aspectos: alimentar-se, fugir, lutar e reproduzir-se. A principal tarefa do sistema nervoso é fazer com que as partes do corpo estejam onde devem estar para que o organismo possa sobreviver. [...] Qualquer melhora do controle sensório-motor confere uma vantagem evolutiva; um estilo mais elegante de representar essas coisas só é vantajoso caso se atrele ao modo de vida do organismo e aumente suas chances de sobrevivência. A verdade, seja ela qual for, fica, em definitivo, em segundo plano."
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O próprio Darwin foi quem começou a perceber essas implicações:

"Sempre surge em mim uma dúvida horrenda quanto a saber se as convicções da mente do homem, desenvolvida a partir da mente dos animais inferiores, têm algum valor ou são, em alguma medida, dignas de confiança. Quem confiaria nas convicções da mente de um macaco, se é que tal mente tem quaisquer convicções?"
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É uma química, mas não apenas uma química material, mas envolve algo exterior ao cérebro, e que não sabemos ao certo o quão ampla essa química é. No entanto não somos robôs, e nossa subjetividade conta, por mais que ela seja menor que a objetividade das leis naturais.
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O cérebro é matéria, sim. Neurônios, impulsos elétricos, neurotransmissores. Só que sistemas materiais podem produzir representações úteis da realidade. A evolução favoreceu organismos capazes de perceber o mundo com alguma precisão, porque errar demais geralmente termina em morte. Agora, isso não significa que nossos pensamentos sejam perfeitamente confiáveis. Muito pelo contrário. O cérebro humano é cheio de vieses, ilusões, racionalizações e atalhos emocionais. Nós esquecemos coisas, inventamos memórias, acreditamos no que queremos acreditar. Basta abrir rede social por cinco minutos e observar. Mas a conclusão não é que nada faz sentido. A conclusão é: nossa mente é falível, porém corrigível. É justamente por isso que existem lógica, método científico, debate, matemática, revisão por pares e comparação com a realidade externa. A ciência não nasceu porque confiamos cegamente na mente humana. Ela nasceu porque não confiamos.

Curiosamente, até a dúvida sobre o cérebro ser confiável já depende do cérebro funcionando razoavelmente bem. Você só consegue formular essa pergunta porque seu sistema cognitivo detecta padrões, contradições e problemas filosóficos. É quase um paradoxo engraçado: usar a razão para suspeitar da própria razão.
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"A evolução favoreceu organismos capazes de perceber o mundo com alguma precisão, porque errar demais geralmente termina em morte."

Isso não é bem verdade nessa caso. Imagine, por exemplo, um indivíduo que, devido a distorções graves em suas faculdades cognitivas, percebe o mundo assim: todo ser vivo é uma "bruxa". Cobras para essa pessoa são "bruxas rastejantes venenosas que envenenadoras". Leões são "bruxas gigantes comedoras". A água é o "sangue da terra". E vários outros exemplos poderiam ser mencionados.

Tudo isso é completamente falso. Porém, se ele evita as "bruxas rastejantes" (cobras), foge das "bruxas gigantes" (predadores), bebe o "sangue da terra", então o comportamento continua adaptativo. A sobrevivência depende do comportamento final, não da verdade conceitual usada para produzi-lo. A seleção natural vai selecionar aquilo que favorece a sobrevivência em detrimento da não-sobrevivência, independentemente da veracidade.
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"até a dúvida sobre o cérebro ser confiável já depende do cérebro funcionando razoavelmente bem. Você só consegue formular essa pergunta porque seu sistema cognitivo detecta padrões, contradições e problemas filosóficos. É quase um paradoxo engraçado: usar a razão para suspeitar da própria razão."

Isso só funcionaria se a pessoa que levanta e esse questionamento acreditasse que as faculdades cognitivas dela não são confiáveis. Mas ninguém aqui está dizendo que as nossas faculdades cognitivas não são confiáveis. O argumento não é que elas não são confiáveis, mas sim que elas não seriam confiáveis se tanto a evolução quanto o naturalismo filosófico fossem verdadeiros.

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Embora sobrevivência não exija verdade perfeita, ela geralmente exige algum grau de rastreamento confiável da realidade, especialmente em organismos complexos operando em ambientes complexos. Seu exemplo da "bruxa rastejante" funciona porque, apesar da interpretação errada, existe um mapeamento funcional consistente: "aquilo longo e rastejante = perigo". A crença metafísica é falsa, mas a detecção prática do padrão continua parcialmente correta. O problema aparece quando o afastamento da realidade fica grande demais. Um organismo que acha: "penhascos são portais mágicos seguros" ou "fogo é amigo líquido' tende a sair rapidamente do pool genético. A evolução tolera ilusões úteis, mas não qualquer ilusão. Então, seleção natural favorece modelos suficientemente funcionais da realidade, não necessariamente modelos filosoficamente verdadeiros. Isso muda bastante a conversa. Porque significa que nossas faculdades cognitivas podem ser pragmáticas antes de serem objetivamente precisas. O cérebro talvez não tenha evoluído para mostrar o mundo como ele é, mas uma interface simplificada útil para ação.
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O ponto é justamente esse: no meu exemplo existe um abismo enorme entre a realidade e o que o indivíduo acredita. Ele não erra só "a interpretação metafísica". Ele erra praticamente tudo sobre o que uma cobra ou um leão realmente são. Ele acha que são bruxas, com propriedades mágicas, intenções mágicas e naturezas completamente inexistentes.

O fato de, por acaso, associar uma "bruxa rastejante" ao perigo não muda isso. Até porque ele evita a cobra pelos motivos errados, bastante desconectados da realidade. Ele não entende veneno, predadores, biologia ou comportamento animal. O sistema inteiro de crenças dele continua profundamente falso, embora ainda consiga gerar um comportamento útil em alguns casos. É algo que a seleção natural ainda poderia manter, pois favoreceria muito a sobrevivência. Ainda assim, já se trataria de faculdades cognitivas nas quais não se pode confiar. Faculdades cognitivas que não tornariam o indivíduo apto a conhecer a realidade. Se eu fujo de um leão porque acho que ele é uma projeção astral que vai roubar minha alma, eu sobrevivo. O comportamento é correto, mas a crença é delirante.
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