Como disse o Peregrino, foi Kardec e os médiuns que o ajudavam que identificaram os espíritas como cristãos. Isso só foi possível porque distorceram o sentido do que é ser cristão. Achavam que cristãos são aqueles que seguem os ensinos morais de Jesus.
Temos vários problemas aí. Historicamente, cristãos são, antes de qualquer coisa, aqueles que creem em Cristo como o Filho de Deus e o servem. Cristãos de todos os lugares e épocas compartilham uma série de doutrinas em comum, que podem ser chamadas de Ortodoxia ou Cristianismo Puro e Simples. Isso inclui a Trindade, a Encarnação da Segunda Pessoa da Trindade, a Ressurreição de Cristo, a autoridade das Escrituras, a obra expiatória de Jesus etc. Sabe quantas dessas doutrinas os espíritas também aceitam? Nenhuma. Os cinco primeiros concílios ecumênicos também são aceitos pelos três grandes ramos da cristandade; os espíritas não aceitam nenhum deles.
Mesmo os supostos ensinos morais de Jesus não são os do Jesus da Bíblia (os espíritas não acreditam na Bíblia, apenas a utilizam quando lhes convém), mas sim os do "Jesus" descrito pelos supostos espíritos que Kardec consultou. Na verdade, são apenas os ensinos dos médiuns do século XIX que Kardec atribuiu a Jesus.
É curioso que eles sejam bastante defensivos em relação à própria doutrina e rápidos em apontar que grupos que se dizem espíritas, como os ramatisistas, rustenistas e outros, não são realmente espíritas. Fazem isso porque entendem que esses grupos distorcem ou negam princípios históricos do espiritismo. Porém, fazem ao cristianismo exatamente aquilo de que acusam esses grupos. Por que os princípios do espiritismo não podem ser negados, mas os do cristianismo podem? Eu diria até que essa é uma atitude hipócrita.
Qualquer argumento que coloque os ramatisistas, umbandistas e rustenistas fora do espiritismo também serve para excluir os espíritas do cristianismo. O contrário também é verdadeiro: qualquer argumento usado para incluir os espíritas como cristãos poderia igualmente servir para incluir rustenistas e ramatisistas como espíritas. Não há como escapar dessa simetria.
Na verdade, os motivos para excluir os espíritos da cristandade são ainda mais fortes que aqueles para excluir rustenistas e ramatisistas do espiritismo, pois esses últimos grupos ainda aceitam os princípios fundamentais da doutrina espírita (comunicabilidade dos espíritos, pluralidade dos mundos habitados, pluralidade das existências, ...), mas discordam de outros ensinos, detalhes que Kardec traz em suas obras; espíritas não aceitam nenhuma das doutrinas fundamentais do cristianismo. Portanto, se os grupos dissidentes devem ser excluídos, mesmo que ainda aceitam os pilares fundamentais da doutrina espírita, divergindo apenas de detalhes ou de obras específicas de Kardec, com maior razão ainda, os espíritas devem ser excluídos do cristianismo. Eles não aceitam apenas alguns detalhes da fé cristã, mas rejeitam absolutamente todas as doutrinas fundamentais do cristianismo (a Trindade, a Divindade de Cristo, a Ressurreição física, a Salvação pela graça, etc).