O cheiro forte de unguento de carvalho e o crepitar abafado da lareira ancoravam os sentidos de volta à realidade, longe do asfalto quente e das telas piscantes.
— Que bom que você acordou. Já estávamos preocupados — a voz de Lyra soou trêmula, o alívio evidente no modo como ela largou a tigela de barro sobre a bancada de pinho. — Você ardia em febre há cinco dias. Delirava sem parar.
Lucas piscou contra a claridade fraca que entrava pelas frestas da janela de madeira rústica, sentindo o corpo fraco, os músculos atrofiados e a pele banhada em suor frio.
— Eu... onde estou? — a voz saiu como um sopro áspero, arranhando a garganta.
Lyra limpou as mãos no avental de linho grosseiro, encarando-o com uma mistura de compaixão e cautela nas pupilas âmbar.
— Na estalagem da Colina Rota, na Orla dos Reinos. Você caiu assim que cruzamos a porteira, despencando da sela. Passou dias inteiros falando coisas sem nexo... sobre torres de vidro gigantes, caixas luminosas que sugavam a energia mental e física das pessoas, e um lugar onde o tempo era vendido por moedas enquanto todos corriam contra o relógio em jornadas exaustivas apenas para sobreviver. Falava de uma violência constante, nas ruas, nas notícias, em todos os lugares.
O silêncio na pequena habitação de pedra pesou, cortado apenas pelo vento frio que uivava lá fora, arrastando o cheiro de pinheiros e terra molhada — um ar puro e implacável, bem distante daquele mundo sufocante que sua mente exausta insistia em deixar para trás.